Na Carta Apostólica Patris Corde, Papa Francisco faz dois parágrafos que devemos refletir e criar paralelos para nossa realidade:
“Ser pai significa introduzir o filho na experiência da vida, na realidade. Não segurá-lo, nem prendê-lo, nem subjugá-lo, mas torná-lo capaz de opções, de liberdade, de partir. Talvez seja por isso que a tradição, referindo-se a José, ao lado do apelido de pai colocou também o de «castíssimo». Não se trata duma indicação meramente afetiva, mas é a síntese duma atitude que exprime o contrário da posse. A castidade é a liberdade da posse em todos os campos da vida. Um amor só é verdadeiramente tal, quando é casto.
O amor que quer possuir, acaba sempre por se tornar perigoso: prende, sufoca, torna infeliz. O próprio Deus amou o homem com amor casto, deixando-o livre inclusive de errar e opor-se a Ele. A lógica do amor é sempre uma lógica de liberdade, e José soube amar de maneira extraordinariamente livre. Nunca se colocou a si mesmo no centro; soube descentralizar-se, colocar Maria e Jesus no centro da sua vida…”
Em outro momento da leitura, nos deparamos com: “O mundo precisa de pais, rejeita os dominadores, isto é, rejeita quem quer usar a posse do outro para preencher o seu próprio vazio; rejeita aqueles que confundem autoridade com autoritarismo, serviço com servilismo, confronto com opressão, caridade com assistencialismo, força com destruição. Toda a verdadeira vocação nasce do dom de si mesmo, que é a maturação do simples sacrifício.
esmo no sacerdócio e na vida consagrada, requer-se este género de maturidade. Quando uma vocação matrimonial, celibatária ou virginal não chega à maturação do dom de si mesmo, detendo-se apenas na lógica do sacrifício, então, em vez de significar a beleza e a alegria do amor, corre o risco de exprimir infelicidade, tristeza e frustração.”
Como estamos vivemos nossa autoridade? Sob regência feudal? Com radicalismo tendencioso e ferino?
Autoridade exige comprometimento. Entender, buscar entender, servir, zelar, envolver.
Como as autoridades estão exercendo “o cuidado maternal, o cuidado paternal” sobre os que mais sentem as dores dos tempos modernos?
A quem cabe o cuidado com as vítimas ambientais?
Neste fim de semana, um jovem professor, oriundo da Angola, chegou à paróquia com escassos valores financeiros, muitos temores e um enorme desejo de reencontrar seus parentes que estão em São Paulo. Graças a Deus encontrou o padre que o deu ouvidos, café e orientações. Foi encaminhado e já está trabalhando. Como? Como auxiliar de pedreiro. Um professor de inglês trabalhando sob sol escaldante, no mês de setembro atípico por conta do El Ninõ. Quantas dores um irmão passa ao sair da sua terra natal simplesmente para tentar sobreviver e, quem sabe posteriormente, resgatar sua dignidade e vida?
As questões ambientais estão deixando muitos órfãos, muitas terras, vilas e comunidades sem filhos.
O padre exerceu seu ofício de pai daquele jovem que mal entende o português, mas ambos tem a mesma origem: filhos de Deus.
Eu busco exercer meu papel? ou eu busco me afirmar sobre os outros?

Marcela Amazonas é doutora em Ciências Florestais e Ambientais, doutora em Biotecnologia e engenheira de madeira. No INPA, atua como pesquisadora COTEI, coordenadora de Tecnologia Social e gerente da Incubadora. No âmbito eclesial, é missionária, agente pastoral da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, cooperadora paulina e membro da Comissão de Ecologia Integral da Arquidiocese de Manaus (Regional Norte 1 da CNBB).