Estamos no último domingo do mês dedicado à reflexão sobre a missionariedade. Hoje destacamos a relação entre missão e misericórdia, sob três aspectos: Deus não exclui ninguém e tem um lado como ponto de partida; sua misericórdia vai além de qualquer Lei porque ela é a Lei Maior; a misericórdia é compartilhada pelo testemunho missionário.
1. O lado de Deus
Deus não faz acepção de pessoas. Ele é Deus de todas as criaturas. É o criador. Em Jesus, nos reconcilia como seus filhos e filhas. Ele é nosso papai querido. Digamos juntos “Deus é nosso papai” (todos repetem).
Do nosso lado, esse amor gratuito de Deus exige nossa aceitação e acolhida para gerar em nós os frutos e efeitos desejados por Ele. Do lado de Deus, Ele tem um ponto de chegada, o ponto alto e conclusivo do investimento de seu amor. Esse ponto final é a Salvação, a participação de todas as criaturas na Comunhão eterna. E o ponto de partida? O ponto inicial?
Se Deus quer salvar a todos, se Ele quer a plena e feliz realização de todos, Ele não vai partir de quem já goza da salvação, de quem já se sente salvo, abençoado, realizado.
A bíblia nos mostra que o legislador, Deus, por meio de Moisés, apresentou suas Leis a partir dos desfavorecidos. Segundo pesquisadores, a Lei de Deus na Tradição Bíblica está entre as poucas que tomam como ponto de partida o cuidado com os mais frágeis. Uma grande diferença para com outras religiões, é que nosso Deus não apenas se põe ao lado dos mais pobres, Ele também se identifica com cada um, caminha com eles e assume sua identidade de modo pleno em Jesus “o que fizestes a um desses pequeninos, foi a mim que o fizestes”.
A Palavra de Deus hoje nos alerta “não fazeis mal ao estrangeiro, à viúva, ao órfão; não abuseis do dinheiro, dos bens e serviço dos pobres”. Se Eles clamarem a mim, diz o Senhor, eu os ouvirei, porque sou misericordioso.
2. A Lei da Misericórdia
Ainda que seja gratuita, que não seja por troca de favores ou mediante pagamentos, a misericórdia tem exigência natural. Ela tem dois mandamentos fundamentais: amar a Deus; amar o próximo.
O amor a Deus exige a integração e harmonia da mente, do coração, da alma. O amor ao próximo confirma e expressa a sintonia consigo e o amor a Deus. Não dá pra ser realmente verdadeiro, se houver desintegração do ser. Se a mente pensa em Deus, e a boca ofende o semelhante, se as mãos se erguem louvando ao Senhor e o coração cheio de ódio leva as mãos a ferir, enganar, trapacear e matar seu irmão.
O amor misericordioso de Deus tem na prática da justiça o seu fundamento e princípio concreto. Sem justiça verdadeira não há misericórdia verdadeira. E sem misericórdia a justiça torna-se agressividade. A justiça divina realizada no amor a Deus e ao próximo, supera a tentação de um amor de sentimentalismo sem concretude e de gestos de bondade enganadores e opressivos.
A misericórdia conta com o testemunho de pessoas que foram abraçadas por ela, a acolheram e por ela foram transformadas.
3. As testemunhas da misericórdia
É assim que contemplamos a comunidade de Tessalônica, para quem Paulo escreveu a Carta cujo trecho ouvimos na segunda leitura. O apóstolo destaca com alegria, o exemplo dessa comunidade testemunhado por irmãos e irmãs da Macedônia e da Acaia.
Irmãos e irmãs, Deus é misericórdia. Você sente que foi atingido pela força da misericórdia Divina? Se cada um de nós, sentimos o poder misericordioso do amor divino, então nos cabe o passo seguinte. De sermos uma comunidade testemunha da justa misericórdia e da misericórdia justa. Concretamente falando de apagar o fogo do ódio, de respeitarmos uns aos outros, de superar as intrigas, de vencer as desavenças, de eliminar os preconceitos, de ajudar sempre a quem necessita com atenção, com incentivo, com apoio financeiro…e evitar criar e promover estruturas que causem sofrimento e mal-estar.
Amemos, sejamos misericordiosos e missionários da misericórdia.
Beruri, 25 de outubro de 2026
Homilia do XXX domingo do Tempo Comum – ano A

Raimundo Gordiano é Padre Diocesano desde sua ordenação em 30 de outubro de 2004. Possui Mestrado em Teologia pela PUC-SP (2017), com a dissertação “A missionariedade da Igreja na Diocese de Coari”. É graduado em Filosofia pela Universidade de Brasília (UNB) e em Teologia pelo Instituto de Teologia Pastoral e Ensino Superior da Amazônia (ITEPES).