Resposta de Agostinho ao pensamento ariano sobre a Trindade contrapõe o pensamento de que Filho de Deus seria uma criatura, inferior ao Pai. Para Ario o Filho de Deus seria uma criatura, por isso, inferior ao Pai em essência, poder e eternidade. Sua principal fundamentação seria principalmente na passagem que Jesus declara: “porque o Pai é maior do que eu” (Jo 14,28). Santo Agostinho refuta essa interpretação equivocada, distinguindo claramente a condição humana assumida pelo Verbo da sua natureza divina e eterna.
Para o autor, a expressão “o Pai é maior” não se refere à substância divina, mas à condição humana assumida no mistério da Encarnação: “igual ao Pai pela forma de Deus, é inferior ao Pai pela forma de servo” (AGOSTINHO, 2014), p. 32). Assumindo a forma de servo, o Filho “esvaziou‑se a si mesmo” (Fl 2,7), mas não perdeu a forma de Deus, na qual é absolutamente igual ao Pai. “O Filho de Deus é, portanto, igual ao Pai pela natureza, inferior pela condição exterior. (AGOSTINHO, 2014, p. 32). Neste viés, pode-se apoiar na imagem da luz e do seu resplendor que assim ilustra essa verdade, pois se o Filho fosse inferior, seria obscuridade da luz e não seu clarão, mas, porém, “Enquanto nascido desde toda eternidade é eterno: é clarão da luz eterna” (AGOSTINHO, 2014, p. 114).Nisso, segundo o posicionamento de Agostinho, resulta necessariamente que o Filho é de igual brilho e essência de quem procede. Por isso entende-se que o erro ariano se consiste em transferir as afirmações relativas à condição humana do Filho para a sua natureza divina imutável e coeterna ao Pai.
Outra argumentação dos arianos, segundo Agostinho (2014), era de que a denominação Pai e Filho implicaria, por si mesma, desigualdade essencial, pois, na ordem criada, quem gera é sempre anterior e superior a quem é gerado. “A distinção entre Pai e Filho, entre Ingenitum esse e genitum esse faz-se segundo a substância. Portanto desaparece a consubstancialidade entre as duas primeiras pessoas: Pai e Filho, tal como proclamara o Concílio de Nicéia” (AGOSTINHO 2014, p. 361). Na mesma obra, a Trindade, Agostinho responde “que o dado bíblico mostra que nem todas as atribuições feitas a Deus referem-se à substância. E o fato de ser ingênito não impede de gerar” (AGOSTINHO 2014, p. 361).
Para Agostinho, ser Pai e ser Filho, não designa o que cada um é, mas como Eles se relacionam entre si, são relações eternas e imutáveis, que não tem diferença ou desigualdade de natureza. “Portanto, ainda que seja diferente ser Pai e ser Filho, não significa que haja diferença de substância, pois isso não é dito conforme a substância, mas sim segundo uma relação. E a relação não é acidental, pois não é mutável” (AGOSTINHO, 2014, p. 122). O Filho é gerado não no tempo nem por transformação, mas de modo eterno.
Corroborando a esse sentido, Agostinho (2014, p. 327) afirma que:
a vida que o Pai deu ao Filho ao gerá-lo, é coeterna à vida do Pai que a deu. Entenda também que, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, para que dele proceda o Espírito Santo, assim deu ao Filho para que dele também proceda o mesmo Espírito.
Nesse caso, pode-se apropriar da expressão do credo Niceno-Constantinopolitano (325-381), que proclama: “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai;” essa proclamação significando precisamente a igualdade absoluta: o Filho procede do Pai, mas não lhe é posterior nem inferior, pois “não se pode afirmar possuir três substâncias, como não se diz três essências. […] uma mesma realidade o ser e o saber, não se diz que há nele três essências nem três sabedorias.” (AGOSTINHO, 2014, p. 152). Nota-se que o próprio Cristo confirma essa unidade ao declarar: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Esse sentido deve ser entendido “segundo a essência e não segundo a relação” (AGOSTINHO, 2014, p. 135).
Agostinho (2014, p. 113) vai afirmar ainda que, mesmo quando se diz que o Filho foi enviado pelo Pai, isso não indica subordinação, mas apenas a ordem de origem: ele é enviado “não no sentido de que seja inferior no poder, na substância ou em algo em que não seja igual ao Pai, mas no sentido de que o Filho vem do Pai e não o Pai do Filho”.
Quanto à unidade da essência, Santo Agostinho afirma categoricamente: “o Pai e o Filho e o Espírito Santo são um só Deus, então um só mundo foi criado pelo Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo” (AGOSTINHO, 2014, p. 367). Agostinho ressalta que a obra criadora do universo é de toda a Trindade. Por isso os três Divinos participam cada um conforme a sua ordem, pois os processos das Pessoas fundamentam as razões de produção das criaturas, enquanto incluem os atributos essenciais, que são a ciência e a vontade.
Quanto à pericorese, ensina‑se que as Pessoas habitam mutuamente umas nas outras, sem confusão nem separação: “sempre e de modo inseparável o Pai está com o Filho e o Filho está com o Pai. Não porque ambos sejam Pai ou Filho, mas porque sempre estão juntos um com o outro.” (AGOSTINHO, 2014, p. 139). Essa presença mútua não elimina a distinção relacional, mas fundamenta o Espírito Santo que é o vínculo da paz que um o Pai e o Filho, existindo pela graça própria de conservar a unidade de espírito entre ele. Agostinho (2014, p. 65) afirma que, em suma, há três Pessoas reais e distintas, mas “os três são um só Deus, conforme ensina a fé católica”.
REFERÊRNCIAS:
AGOSTINHO, Santo. A Trindade . 2. ed. São Paulo: Paulus, Coleção Patrística, v. 7. Arquivo em PDF.
BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém : nova edição, revista e ampliada. 18. reimpr. São Paulo: Paulus, 2002.

Sebastião Caldas estar seminarista diocesano, possui graduação em Filosofia Bacharelado pela FSDB Faculdade Salesiana Dom Bosco Manaus AM (2021). Atualmente cursando Teologia Bacharelado pela FCA Faculdade Católica do Amazonas. Possui curso de extensão universitária Controle Social em Políticas Públicas e Participação Social pela PUCRS Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2019.)