A Reflexão sobre a imagem de Deus violento na Bíblia, nos coloca diante da narrativa de um Deus violento e guerreiro, como nos apresenta o Primeiro Testamento e principalmente nas narrativas do Livro de Josué, tornando necessário um profundamento dessa reflexão e sua contextualização a época para entender a mentalidade do povo e assim compreender a mensagem que o autor sagrado quer transmitir. A partir do Segundo Testamento, tem-se outra interpretação na pessoa de Jesus, n’Ele vê-se um Deus que renuncia a guerra, o reinado terreno e na sua liberdade e fidelidade ao seu projeto se entrega por amor.
Nesta reflexão sobre a imagem de Deus violento na Bíblia, leva-se em consideração a mentalidade do povo a época, esses pensavam a divindade de Deus a partir de suas próprias humanidades, por isso as vitórias contra os inimigos, a doença, a cura, a morte assim como os fenômenos naturais eram atribuídos a uma causalidade divina, ou seja, atribuíam a Deus
Voltando-se para o contexto de guerra onde Deus aparece violento, “implacável”, considera-se o momento na história e a região em que o povo Israel se encontra, a imagem de um deus que comanda as frente militares, faz parte do esquema de guerra a época no “antigo Próximo Oriente”, e as vitórias dos reis e chefes militares com os deuses que os protegiam eram retribuídas com grandes sacrifícios nos templos. Como ressalta Vaz:
Além de todas as técnicas militares, a guerra estava associada a actos religiosos e era preparada com sacrifícios cultuais; empreendia-se por ordem dos deuses ou pelo menos com a sua aprovação, significada por presságios, e levava-se a cabo com a ajuda dos deuses; neste sentido lato, toda a guerra era santa.
Um outro exemplo dessa mentalidade pode-se perceber entre os Hititas que tem a guerra como “uma prova, aceite sob o nome de juízo divino, que revelaria a inocência ou a culpabilidade de alguém acusado de um crime; neste caso, a guerra revelaria quem tinha razão dando-lhe a vitória e seriam os deuses que o fariam vencer.” Com isso entende-se que o povo de Israel bebeu fortemente nessa fonte por estarem inseridos nesta realidade. “Tudo isto se encontra analogamente em Israel e na Bíblia”, ressaltou Vaz.
Vaz acrescenta ainda que:
Um exemplo flagrante da partilha desta mentalidade encontra-se em Jz 11,24, onde o líder israelita Jefté desafia o rei dos ammonitas, que queria conquistar território a Israel: «Não possuis já tudo o que o teu deus Kamos tirou para ti aos seus possuidores? Igualmente nós possuímos tudo o que Yahvé, nosso Deus, tirou para nós aos seus possuidores». A explicação fundamentada, a ideologia, as afirmações teológicas e até a fraseologia da guerra e da prática da guerra eram essencialmente as mesmas e comuns à Assíria e a Israel e pelo antigo Próximo Oriente fora.
Essa visão de que Deus estar presente em todos os domínios da vida humana, envolve também as ações de guerra, como expressa Vaz, “punha-se Deus no acampamento a comandar as batalhas, como «guerreiro» e herói, «Yahvé dos exércitos e Deus das hostes de Israel», senhor da guerra; as guerras de Israel são, de facto, chamadas «guerras de Yahvé»”. Essa compreensão da guerra como sagrada desaparece tempos mais tarde com o estabelecimento da monarquia, “já não é Yahvé que marcha à frente de Israel para combater as guerras de Yahvé. É o rei que vai à cabeça do povo (I Sm 8,20). Os combatentes já não são voluntários, mas profissionais ao serviço do rei”. (VAZ, Armindo dos Santos).
Diante do exposto acima nesta reflexão, entende-se que a imagem de um Deus violento na Bíblia está na maneira antropomórfica (com características humanas; que atribui algo a qualidades humanas) das ações de Deus junto a seu povo, percebe-se que os autores sagrados levaram em conta os sentimentos e a mentalidade humana para as ações de Deus, no entanto Deus não age com mentalidade humana. O que ajuda a tirar essa mentalidade de uma violenta imagem de Deus é olhar a partir do Segundo Testamento, na pessoa de Jesus temos outra interpretação de Deus.
Mesmo diante da mentalidade de muitos que apresentam Deus que manda seu filho para o sacrifício em favor da humanidade, entende-se que essa não era a vontade de Deus. Bem expressou Vaz ao dizer: “No fundo, Jesus foi morto contra a vontade do Pai. O que Deus realmente queria não era a morte do seu Filho, como habitualmente se entende esse inciso da oração de Jesus («todavia, não se faça o que eu quero, mas o que tu queres»: Mc 14,36; Lc 22,42)”, mas sim a realização do seu projeto salvífico e libertador do ser humano.
Com isso conclui-se que a mentalidade da época, a maneira como vivia o povo de Israel naquele contexto, e claro, com interpretação antropomórfica leva a atribuí a Deus ações de violência e punições em determinadas situações. Como vê-se no Segundo Testamento na pessoa de Jesus Cristo aparece um Deus dotado de amor e misericórdia, sem qualquer aspecto violento, mas que se entrega livremente por amor a humanidade e fidelidade ao seu projeto.
Referências:
VAZ, Armindo dos Santos. A imagem de um Deus violento na Bíblia.

Sebastião Caldas estar seminarista diocesano, possui graduação em Filosofia Bacharelado pela FSDB Faculdade Salesiana Dom Bosco Manaus AM (2021). Atualmente cursando Teologia Bacharelado pela FCA Faculdade Católica do Amazonas. Possui curso de extensão universitária Controle Social em Políticas Públicas e Participação Social pela PUCRS Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2019.)