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Imagem: Pinterest |
Autor: Sebastião Caldas
O pensamento ariano defendia que o Filho de Deus seria uma criatura, por isso, inferior ao Pai em essência, poder e eternidade. Sua principal fundamentação seria principalmente na passagem que Jesus declara: “porque o Pai é maior do que eu” (Jo 14,28). Santo Agostinho refuta essa interpretação equivocada, distinguindo claramente a condição humana assumida pelo Verbo da sua natureza divina e eterna.
Para o autor, a expressão “o Pai é maior” não se refere à substância divina, mas à condição humana assumida no mistério da Encarnação: “igual ao Pai pela forma de Deus, é inferior ao Pai pela forma de servo” (AGOSTINHO, 2014), p. 32). Assumindo a forma de servo, o Filho “esvaziou‑se a si mesmo” (Fl 2,7), mas não perdeu a forma de Deus, na qual é absolutamente igual ao Pai. “O Filho de Deus é, portanto, igual ao Pai pela natureza, inferior pela condição exterior. (AGOSTINHO, 2014, p. 32). Neste viés, pode-se apoiar na imagem da luz e do seu resplendor que assim ilustra essa verdade, pois se o Filho fosse inferior, seria obscuridade da luz e não seu clarão, mas, porém, “Enquanto nascido desde toda eternidade é eterno: é clarão da luz eterna” (AGOSTINHO, 2014, p. 114).Nisso, segundo o posicionamento de Agostinho, resulta necessariamente que o Filho é de igual brilho e essência de quem procede. Por isso entende-se que o erro ariano se consiste em transferir as afirmações relativas à condição humana do Filho para a sua natureza divina imutável e coeterna ao Pai.
Outra argumentação dos arianos, segundo Agostinho (2014), era de que a denominação Pai e Filho implicaria, por si mesma, desigualdade essencial, pois, na ordem criada, quem gera é sempre anterior e superior a quem é gerado. “A distinção entre Pai e Filho, entre Ingenitum esse e genitum esse faz-se segundo a substância. Portanto desaparece a consubstancialidade entre as duas primeiras pessoas: Pai e Filho, tal como proclamara o Concílio de Nicéia” (AGOSTINHO 2014, p. 361). Na mesma obra, a Trindade, Agostinho responde “que o dado bíblico mostra que nem todas as atribuições feitas a Deus referem-se à substância. E o fato de ser ingênito não impede de gerar” (AGOSTINHO 2014, p. 361).
Para Agostinho, ser Pai e ser Filho, não designa o que cada um é, mas como Eles se relacionam entre si, são relações eternas e imutáveis, que não tem diferença ou desigualdade de natureza. “Portanto, ainda que seja diferente ser Pai e ser Filho, não significa que haja diferença de substância, pois isso não é dito conforme a substância, mas sim segundo uma relação. E a relação não é acidental, pois não é mutável” (AGOSTINHO, 2014, p. 122). O Filho é gerado não no tempo nem por transformação, mas de modo eterno.
Corroborando a esse sentido, Agostinho (2014, p. 327) afirma que:
a vida que o Pai deu ao Filho ao gerá-lo, é coeterna à vida do Pai que a deu. Entenda também que, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, para que dele proceda o Espírito Santo, assim deu ao Filho para que dele também proceda o mesmo Espírito.
Nesse caso, pode-se apropriar da expressão do credo Niceno-Constantinopolitano (325-381), que proclama: “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai;” essa proclamação significando precisamente a igualdade absoluta: o Filho procede do Pai, mas não lhe é posterior nem inferior, pois “não se pode afirmar possuir três substâncias, como não se diz três essências. […] uma mesma realidade o ser e o saber, não se diz que há nele três essências nem três sabedorias.” (AGOSTINHO, 2014, p. 152). Nota-se que o próprio Cristo confirma essa unidade ao declarar: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Esse sentido deve ser entendido “segundo a essência e não segundo a relação” (AGOSTINHO, 2014, p. 135).
Agostinho (2014, p. 113) vai afirmar ainda que, mesmo quando se diz que o Filho foi enviado pelo Pai, isso não indica subordinação, mas apenas a ordem de origem: ele é enviado “não no sentido de que seja inferior no poder, na substância ou em algo em que não seja igual ao Pai, mas no sentido de que o Filho vem do Pai e não o Pai do Filho”.
Quanto à unidade da essência, Santo Agostinho afirma categoricamente: “o Pai e o Filho e o Espírito Santo são um só Deus, então um só mundo foi criado pelo Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo” (AGOSTINHO, 2014, p. 367). Agostinho ressalta que a obra criadora do universo é de toda a Trindade. Por isso os três Divinos participam cada um conforme a sua ordem, pois os processos das Pessoas fundamentam as razões de produção das criaturas, enquanto incluem os atributos essenciais, que são a ciência e a vontade.
Quanto à pericorese, ensina‑se que as Pessoas habitam mutuamente umas nas outras, sem confusão nem separação: “sempre e de modo inseparável o Pai está com o Filho e o Filho está com o Pai. Não porque ambos sejam Pai ou Filho, mas porque sempre estão juntos um com o outro.” (AGOSTINHO, 2014, p. 139). Essa presença mútua não elimina a distinção relacional, mas fundamenta o Espírito Santo que é o vínculo da paz que um o Pai e o Filho, existindo pela graça própria de conservar a unidade de espírito entre ele. Agostinho (2014, p. 65) afirma que, em suma, há três Pessoas reais e distintas, mas “os três são um só Deus, conforme ensina a fé católica”.
REFERÊRNCIAS:
AGOSTINHO, Santo. A Trindade . 2. ed. São Paulo: Paulus, Coleção Patrística, v. 7. Arquivo em PDF.
BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém : nova edição, revista e ampliada. 18. reimpr. São Paulo: Paulus, 2002.

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