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O grande cisma, por assim dizer, que existia à época, era o pensamento da corrente ariana, que defendia a inferioridade de Jesus, pois, segundo essa argumentação, Ele foi criado dentro de um espaço cronológico, “houve um tempo em que [o Filho] não existia, antes de nascer ele não existia” (COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL, 2025, n. 11), por essa razão era inferior e não consubstancial, “mas apenas a criatura mais eminente do Pai, e que não é coeterno com Ele.” [1] Contrapondo essa visão perigosa, os padres do Oriente e do Ocidente, não apenas com tratados teológicos, mas com o esclarecimento da fé nicena, dirigiram seus sermões à fé buscando preservará-los dessa visão ariana errônea, e para isso o prólogo do Evangelho de João (1,1-17) ” oferece de maneira detalhada essa oportunidade de explicar a relação entre o Pai e o Filho, ou entre ‘Deus’ e a sua ‘Palavra'” , [2] conforme a confissão de Niceia.
[1] Comissão Teológica Internacional, 2025, n. 56 .
Considere-se outro ponto importante da defesa da fé nicena, com relação às pessoas trinitárias e à consubstancialidade, o posicionamento de Niceia. Segundo Alberigo (1995, p. 33), o Concílio afirma que: “’Consubstancial ao Pai’ indica que o Filho de Deus não tem nenhuma semelhança com as criaturas que foram feitas; ele é um tudo semelhante só ao Pai que o gerou, e não deriva de outra hipóstase ou substância, mas do Pai.” Esse termo consiste em um vocabulário já existente antes de Niceia, desenvolvido historicamente a partir do pensamento filosófico e teológico.
Nenhum âmbito filosófico foi usado por:
Plotino e Porfírio a propósito de seres pertencentes à mesma classe, embora entre si o mesmo tipo de conteúdo. […] No âmbito parceiro, [..] indica ‘semelhança no ser’ entre seres diferentes. […] Também nesse caso a acepção é genérica, e foi nesse sentido que homoousios passaram a ser usados por Orígenes. […] De qualquer forma, Orígenes provavelmente não pretendia afirmar a identidade de substância entre Pai e Filho, mas o fato de que eles participam da mesma substância. (ALBERIGO, 1995, p. 33).
A despeito dessa pluralidade conceitual, os arianos se negaram a aceitar o termo. Conforme já se observou na “Carta de Ário a Alexandre”, [3] eles interpretaram o vocabulário sob uma perspectiva de restrição material e, por essa razão, o rejeitaram com firmeza.
Evidentemente a Igreja confessa a fé em um só Deus, mas Uno e Trino, como assegura a Comissão Teológica Internacional (2025, n. 11), “Deus excede tudo o que podemos conceber ou imaginar, porque a sua Unidade pressupõe uma pluralidade real que não rompe a Unidade.” Neste viés pode-se garantir que o “Pai dá tudo ao Espírito, […] com termos específicos e reservados à divindade: Espírito Santo e Senhor, […] Assim como o Pai é o criador e o Filho é o Verbo pelo qual o Pai cria todas as coisas, o Espírito é professado como o ‘doador da vida’ [4] .A Comissão Teológica Internacional (2025, n. 12), pontua que, o “Espírito ‘procede do Pai’, assim como o Filho é gerado pelo Pai. As afirmações sobre o Espírito fazem eco intencionalmente ao artigo referente ao Filho.” Assim sendo, pode-se dizer que consequentemente, o “Espírito pode e deve ser adorado com o Pai e o Filho – confirmando o caráter doxológico do Símbolo.” [5]
Uma participação crucial para a abordagem desse tema da Trindade e do ante arianismo, é o Hino “Hino sobre a Trindade” de Santo Efrém, o Sírio, que traz nesse hino uma poesia teológica profunda que enriquece a grandiosidade do Mistério Trinitário. Neste hino, o Santo sintetiza o combate ao arianismo e, assim reafirma o dogma trinitário estabelecido por Niceia. Sua forma poética não anula a profundidade teológica e o combate ante ariano.
Contrapondo o pensamento ariano o Santo afirma em seu hino que, o Filho e o Espírito Santo têm em si a mesma natureza, essência e consubstancialidade do Pai. A pluralidade não derrota a unidade de Deus, mas a riqueza em três Pessoas, como já vimos anteriormente. O hino apresenta o sol como símbolo do Pai, Luz fontal de onde emana o poder criador, invisível em essência, mas visível por sua manifestação. O Filho se revela como a luz que irradia da grande Luz que é o Pai, o Espírito é a energia, o amor e a força vital que procede do Sol e da Luz, de forma invisível, ele aquece intensamente os corações. “Toma como símbolos o sol para o Pai, A luz para o Filho, O calor para o Espírito Santo”, diz Santo Efrém ([sd] p. 13) em seu hino. E segue afirmando que, “Embora sendo um único ser, percebemos nele uma Trindade” (EFRÉM [sd] p. 13). Santo Efrém, segue o seu hino fazendo uma pergunta: “Quem poderá compreender o inexplicável?” Esse é o mistério maravilhoso que se manifesta.
[3] Alberigo, 1995, p. 33.
Preciosas são as palavras poética de Santo Efrém expressas no seu hino quando diz: O sol é distinto do seu irradiar embora esteja a ele unido, pois os seus raios também são o sol. E, contudo, ninguém fala de dois sois, embora os raios sejam também o sol cá em baixo” (EFRÉM, [s.d.] p. 14). Esse simbolismo do sol que o santo usa em seu hino para ajudar na compreensão da Trindade, é uma teologia profunda que também combate o pensamento ariano e afirma a substancialidade entre as pessoas e reforça o Filho como coeterno com o Pai.

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